Caminhos estranhos
Há momentos em que Deus age de uma maneira tão surpreendente, tão fora do nosso padrão de lógica humana, que até parece contradizer tudo aquilo que sabemos sobre Ele. E é nesses momentos que a Bíblia nos convida a parar, olhar de novo, e reconhecer: Deus está fazendo uma estranha obra.
Sim, é estranho ver o Deus de amor levantar a mão em juízo. É estranho ver o Pai justo ferindo seus próprios filhos. É estranho, à primeira vista, ver Deus se levantar como um inimigo contra o seu próprio povo. Mas é essa a cena que encontramos em Isaías vinte e oito, verso vinte e um. O texto diz:
“Porque o Senhor se levantará como no monte Perazim, e se irará como no vale de Gibeom, para fazer a sua obra, a sua obra estranha, e para executar o seu ato, o seu ato inaudito.”
Deus estava olhando para o seu povo, Judá, e via que eles haviam feito alianças com o Egito, buscado refúgio em políticos e em acordos humanos, abandonando a confiança no Senhor. E diante disso, o Senhor anuncia que vai se levantar. Vai agir. Mas de um jeito “estranho”, incomum — como fez nos dias em que derrotou os filisteus em Perazim e os amorreus em Gibeom. Só que agora… não era contra os inimigos de Israel, mas contra o próprio Israel.
Isso choca. Isso fere nosso senso religioso. Mas também revela uma das faces mais tremendas da graça de Deus: Ele julga, para salvar. Ele fere, para curar. Ele se levanta contra, para no fim estar a favor. Deus é um Pai que prefere confrontar do que perder. Ele prefere permitir a dor… do que deixar o filho se perder em falsa paz.
E o que mais impressiona é que esse padrão se repete nas Escrituras. O profeta Habacuque também ouviu de Deus algo semelhante. Em meio à corrupção do povo, Habacuque clama por justiça — e Deus responde com um escândalo: “Eu estou levantando os caldeus para trazer juízo sobre vocês.” E então Deus diz, em Habacuque capítulo um, verso cinco:
“Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos e desvanecei; porque realizarei, em vossos dias, uma obra tal que não crereis, quando vos for contada.”
De novo: uma obra estranha. Uma ação de Deus que parece absurda. Mas é exatamente isso: Deus não fica inerte diante da rebeldia. Ele age — e age com justiça. Mas mesmo na justiça, há graça. Ele não permite que seu povo continue no caminho da perdição sem ser confrontado.
E mais à frente, já no Novo Testamento, vemos Paulo citando exatamente esse trecho de Habacuque em Atos capítulo treze, quando ele prega na sinagoga. E o que ele está dizendo é algo tremendo: Deus está fazendo de novo uma obra estranha. Ele está abrindo as portas da salvação para os gentios — porque os próprios judeus estavam rejeitando a mensagem do evangelho. E assim como em Isaías e Habacuque, o juízo mais uma vez viria — e veio, no ano setenta, quando Jerusalém foi destruída. Mas antes disso… Deus já havia estendido o braço em salvação.
Então, a pergunta que ecoa é: por que resistir a esse amor que adverte? Por que endurecer o coração diante desse Deus que fere, mas com mãos que curam? Por que escolher ficar debaixo do juízo, quando a salvação já foi aberta pela cruz?
A estranha obra de Deus continua sendo, no fim, um ato de amor. Um amor tão profundo que nos confronta. Um amor tão santo que não se acomoda. Um amor que nos persegue… até mesmo com dor, se for preciso, para nos salvar.
E é sobre essa obra — estranha aos olhos do mundo, mas gloriosa para quem crê — que nós vamos refletir agora.
O Alerta de Isaías – Quando Deus Se Levanta Contra os Seus
O capítulo vinte e oito de Isaías é um verdadeiro grito profético. É como se Deus estivesse batendo à porta da consciência de um povo que não quer mais ouvi-lo. O capítulo começa com um lamento contra Efraim (o Reino do Norte), mas logo se volta com intensidade para os líderes de Judá — especialmente os sacerdotes e profetas de Jerusalém. Homens que deveriam guiar o povo em justiça, mas estavam embriagados, não só de vinho, mas de arrogância, cegueira e religiosidade vazia.
Judá, nesse momento, está sob ameaça da Assíria, uma superpotência cruel que já havia destruído Samaria, a capital do Reino do Norte. Ao invés de se voltarem para Deus em arrependimento, os líderes de Judá estão tramando alianças políticas — especialmente com o Egito — e dizendo para si mesmos: “Estamos seguros. Fizemos um pacto com a morte. Nada nos alcançará.”
Isaías então denuncia essa aliança falsa como um “trato com o inferno” (verso 15). Eles haviam feito acordos que não podiam garantir proteção verdadeira, e se refugiavam em mentiras, achando que isso os livraria do juízo.
E é nesse cenário que entra o versículo 21 — o ponto alto da advertência de Deus:
“Porque o Senhor se levantará como no monte Perazim, e se irará como no vale de Gibeom, para fazer a sua obra, a sua obra estranha, e para executar o seu ato, o seu ato inaudito.”
Aqui, Deus cita duas batalhas da história de Israel que tinham um peso tremendo: o monte Perazim (Segunda Samuel 5) e o vale de Gibeom (Josué 10).
– Em Perazim, Davi derrota os filisteus com a intervenção direta de Deus. O nome do lugar significa “Deus rompeu” — como uma enxurrada que rompe barreiras.
– Em Gibeom, Josué trava uma batalha onde Deus envia grandes pedras do céu e até detém o sol. É a intervenção sobrenatural de Deus para salvar Israel.
Mas agora, Isaías diz algo chocante: o Senhor vai agir como em Perazim… mas não para livrar Israel, e sim para julgá-la. Vai lutar como em Gibeom… mas não contra os inimigos de Israel, e sim contra o próprio povo rebelde.
É por isso que o profeta chama isso de “obra estranha” — porque não é comum ver Deus se levantar contra os seus. E ao mesmo tempo… é exatamente isso que torna esse ato tão cheio de misericórdia: Deus prefere confrontar seu povo do que deixá-lo seguir iludido para a perdição.
Essa é a essência do amor santo de Deus. Ele é longânimo, paciente, mas também é justo. Ele adverte, Ele corrige, Ele permite que as fundações falsas caiam — tudo isso para fazer o povo enxergar que só Ele é rocha segura.
O versículo seguinte, o vinte e dois, reforça esse apelo:
“Agora, pois, não continueis a escarnecer, para que não se agravem ainda mais os vossos grilhões; porque do Senhor Deus dos Exércitos ouvi falar de uma destruição, e já está determinada sobre toda a terra.”
É como se o Senhor dissesse: “não brinquem com a minha paciência. Eu já determinei o limite.” Mas… até aqui, a mão ainda está estendida
Habacuque e a Obra Estranha Pela Mão dos Ímpios
Depois de Isaías ter profetizado sobre o juízo que viria sobre Judá por confiar em alianças humanas, em vez de confiar em Deus, passamos agora para o profeta Habacuque — que viveu cerca de cem anos depois, e viu de perto esse juízo tomando forma de maneira ainda mais surpreendente.
Enquanto Isaías lidava com a ameaça da Assíria, Habacuque viveu no tempo em que o novo império dominante era a Babilônia, também chamados de caldeus. A situação espiritual de Judá continuava a mesma: injustiça, violência, corrupção nos tribunais, opressão dos pobres, e uma frieza espiritual generalizada. E Habacuque se levanta com uma queixa sincera a Deus:
“Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?” (Habacuque 1 verso 2)
O profeta está inconformado. Ele olha pro próprio povo e vê maldade por toda parte, e sente que Deus está em silêncio. Mas a resposta de Deus é ainda mais surpreendente do que o silêncio:
“Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos e desvanecei; porque realizarei, em vossos dias, uma obra tal que não crereis, quando vos for contada.” (Habacuque 1 verso 5)
O Senhor diz: “Eu estou fazendo algo. Mas vocês não vão acreditar. Eu estou levantando os caldeus, um povo feroz, impiedoso, para corrigir Judá.”
Imagine o choque do profeta. Deus vai usar um povo mais ímpio ainda para castigar o seu próprio povo? Isso é escandaloso. É, de novo, uma obra estranha. Um ato que parece contradizer o caráter de Deus.
Mas Deus está mostrando algo muito profundo aqui: não importa o instrumento que Ele usa — sua mão está no controle. E mesmo a vara do castigo serve ao seu plano de redenção.
Habacuque responde com perplexidade, tentando entender: “Como o Senhor, que é tão puro de olhos, pode tolerar os ímpios devorando os justos?” (Habacuque 1 verso 13). Mas Deus não o corrige pela dúvida. Ao contrário, Ele mostra que o juízo virá sobre os caldeus também — mas, antes disso, Judá precisa passar por esse fogo para ser purificada.
E no meio disso tudo, Deus deixa uma joia escondida, que se torna um pilar de toda a revelação posterior:
“Mas o justo viverá pela sua fé.” (Habacuque 2 verso 4)
Aqui está o coração da estranha obra de Deus: o juízo vem, mas há um caminho de vida. E esse caminho não é por mérito, nem por nacionalidade, nem por força — é pela fé.
A mensagem de Habacuque se alinha perfeitamente com a de Isaías: Deus age, mesmo contra o seu povo, para salvar um remanescente. O fogo que queima também purifica. O choro que vem à noite prepara o cântico da manhã.
E esse fio profético não termina aqui. Ele vai atravessar séculos até chegar em Paulo, que verá essa mesma “obra estranha” se manifestar em Cristo e no escândalo da cruz. E é aí que a graça se revela na sua forma mais profunda — e mais escandalosa.
Paulo e a Última Chamada Antes do Juízo
Séculos se passaram desde Isaías e Habacuque. A Assíria caiu, a Babilônia também. Vieram os persas, os gregos, e agora, nos dias de Paulo, o mundo estava sob domínio de Roma. Mas o problema… continuava o mesmo: um povo de dura cerviz, que resiste à voz de Deus mesmo quando ela é cheia de amor e misericórdia.
Em Atos capítulo treze, Paulo está pregando numa sinagoga em Antioquia da Pisídia. Ele traça a história do povo de Israel — desde a saída do Egito, passando pelos juízes, Saul, Davi — até chegar em Jesus, o Salvador prometido, aquele que foi rejeitado, crucificado… mas que ressuscitou dentre os mortos.
E é nesse momento, ao final da sua pregação, que Paulo lança um alerta, uma advertência profética. Ele diz:
“Vede, ó desprezadores, admirai-vos e desaparecei; porque eu realizo, em vossos dias, uma obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar.” (Atos 13 verso 41)
Ele está citando Habacuque 1 verso 5. Mas agora, essa “obra estranha” tem outro rosto: é a cruz de Cristo, é a oferta da salvação aos gentios, é a rejeição dos próprios judeus ao Messias prometido.
Deus está mais uma vez dizendo: “Eu estou agindo. Estou fazendo algo incrível diante dos olhos de vocês. Mas se rejeitarem, isso se voltará em juízo.” E infelizmente, muitos rejeitaram.
Jesus mesmo havia profetizado isso em lágrimas. Em Lucas 13 verso 34, Ele diz:
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste!”
Essa rejeição não passou sem consequência. No ano 70 depois de Cristo, Jerusalém foi sitiada pelos romanos. O templo foi destruído, os judeus dispersos. A cidade foi tomada por fome, violência e sangue. Foi o juízo — o cumprimento daquilo que Isaías e Habacuque já haviam apontado, agora consumado.
Mas aqui está o ponto mais glorioso: a morte veio, sim. Mas Jesus a venceu antes que ela chegasse. Antes que Jerusalém fosse destruída, Deus já havia estendido o braço da salvação — e essa mão continua estendida até hoje.
A cruz é a maior de todas as “obras estranhas”. É Deus julgando o pecado… em seu próprio Filho. É Deus ferindo… para curar. É Deus permitindo que o Cordeiro morra… para que os rebeldes tenham vida.
Paulo sabia disso. Ele viu essa graça se derramar sobre gentios e judeus quebrantados. Mas também viu o juízo se aproximando dos que zombavam, resistiam e endureciam o coração.
Por isso, a pergunta que ele deixa ecoando ainda vale: por que escolher viver debaixo de juízo… quando a salvação foi aberta?
Conclusão – Quando a Obra Estranha Te Encontra
A gente viu até aqui como Deus, por meio dos profetas Isaías e Habacuque, falou de uma obra incomum. Um juízo que não era só castigo, mas um caminho de salvação. Depois, vimos Paulo, que pregou essa mesma verdade: Deus estava operando novamente — e muitos estavam rejeitando. E o resultado foi o juízo sobre Jerusalém.
Mas agora… deixa eu te lembrar de uma coisa muito especial: o próprio Paulo, antes de pregar essa mensagem, experimentou na pele essa estranha obra.
Ele não era um santo. Não era um homem temente. Ele era perseguidor da igreja. Um homem que respirava ameaças contra os seguidores de Cristo. Mas num certo dia, no caminho para Damasco, quando ia justamente prender mais servos de Deus… Jesus o encontrou.
E o que Jesus disse pra ele foi profundo e cortante:
“Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões.” (Atos 9 verso 4 e 5)
Jesus estava dizendo: “Você está resistindo. Está se debatendo contra aquilo que já sabe no seu coração. E isso está te ferindo.” Essa era a obra estranha de Deus: Jesus indo ao encontro de um inimigo para fazê-lo filho.
Paulo caiu. Ficou cego. Foi humilhado. Mas foi nesse momento que ele viu com clareza quem era Jesus. E a partir dali, ele jamais voltou a ser o mesmo.
Sim, a estranha obra também alcançou Paulo. E, depois disso, ele passou a sofrer por causa dessa mesma obra. Foi perseguido, rejeitado, preso, apedrejado. Mas agora, ele sabia: ele tinha um Salvador. Ele havia sido alcançado por um amor que confronta, mas que transforma.
E agora, eu te pergunto…
Será que essa mesma obra estranha não está se apresentando a você também hoje?
Talvez você esteja vivendo uma fase de resistência. Talvez tenha se afastado. Talvez até esteja lutando contra Deus, como Paulo fazia. Ou quem sabe, está só indiferente, achando que está tudo bem. Mas aí vem Deus… e toca. Toca com um sermão, com uma leitura, com uma lembrança, com um aperto no coração.
Essa obra estranha de Deus pode vir como dor, como confronto, como perda, como silêncio. Mas ela sempre vem com um propósito: salvar você.
E o mais lindo de tudo isso é que não precisa ser juízo pra você. Porque o juízo já caiu sobre Jesus na cruz. A porta está aberta. A mão está estendida. A pergunta agora é simples e direta:
Você vai continuar resistindo? Ou vai se render a esse amor que te chama?
A escolha é sua. E ela não é pequena. É uma escolha entre vida e morte, entre graça e juízo.
Hoje, Deus está realizando mais uma vez… a sua estranha obra. Só que agora, ela tem um nome: Jesus.
Receba-o.