Tanque de Betesda

O Tanque Esquecido: Como uma Descoberta Arqueológica Lançou Luz Sobre o Cenário e o Milagre de João 5

² Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.

³ Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressecados, esperando o movimento da água.

⁴ Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.

⁵ E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.

⁶ E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são? (João 5:2-6)

O que acontece quando um relato bíblico, por séculos, parece não ter um lugar no mapa? Esta foi a pergunta que desafiou gerações de estudiosos e céticos em relação a uma das histórias mais cativantes do Evangelho de João. A narrativa da cura de um paralítico no Tanque de Betesda, descrita em João 5, era frequentemente vista como uma invenção literária ou uma alegoria teológica. A descrição de um tanque com “cinco pórticos” parecia geograficamente implausível, e nenhuma evidência física ou registro histórico externo corroborava sua existência no primeiro século. A narrativa, para muitos, pairava sobre a história sem uma âncora material, levando a dúvidas sobre a confiabilidade do evangelista.  

Contudo, como uma investigação que segue pistas há muito esquecidas, a arqueologia interveio. Em 1888, uma descoberta fortuita mudou completamente a perspectiva. O arqueólogo e arquiteto Conrad Schick, conhecido por seu conhecimento detalhado dos sistemas de água de Jerusalém, identificou um complexo de piscinas próximo à Igreja de Santa Ana, que correspondia notavelmente às pistas do evangelho. Esta descoberta inicial, e as subsequentes escavações que se estenderam por mais de um século, deram vida a um cenário antes invisível. Este relatório convida o leitor a uma jornada de descoberta, onde cada artefato e cada escavação servem como pistas que desvendam um mistério histórico, transformando uma narrativa de fé em uma realidade tangível, rica em contexto e significado. O objetivo não é “provar” a Bíblia, mas utilizar a evidência material para iluminar o seu contexto, mostrando como a arqueologia serve como uma poderosa lente para entender a vida, a cultura e os desafios do primeiro século.  

Uma Jornada de Descoberta

O Cenário Se Revela: A Localização Exata e o Nome Revelador

O Evangelho de João é notavelmente preciso em sua descrição do local do milagre. O texto começa afirmando: “Existe em Jerusalém, perto da Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, que tem cinco pórticos” (João 5:2). Por muito tempo, essa descrição carecia de validação externa, levando à especulação de que o autor não tinha um conhecimento real da topografia da cidade. No entanto, as escavações arqueológicas confirmaram a exatidão do relato. O sítio do Tanque de Betesda está localizado no atual Bairro Muçulmano da Cidade Velha de Jerusalém, a apenas 50 metros do Portão de Santo Estêvão, tradicionalmente conhecido como Porta das Ovelhas, através da qual ovelhas eram levadas para o sacrifício no Templo. A correlação entre a descrição de João e a localização dos restos arqueológicos é uma das evidências mais fortes da fiabilidade histórica do evangelista.  

O próprio nome do tanque, “Betesda,” carrega um significado profundo que se encaixa perfeitamente no cenário. Derivado do hebraico ou aramaico, Beth hesda significa “Casa de Misericórdia” ou “Casa de Graça”. O nome é uma ironia comovente, pois o local era, de fato, um ponto de reunião para a miséria humana. Uma “grande multidão de doentes, cegos, coxos e paralíticos” se amontoava ali, esperando por uma intervenção que pudesse mudar suas vidas. Essa descrição, confirmada pelo nome do local, revela a precisão de João não apenas na geografia, mas também na atmosfera social daquele tempo.  

A Evidência Física: O Enigma dos “Cinco Pórticos” Resolvido

Talvez o ponto mais contestado pelos críticos tenha sido a menção de “cinco pórticos”. A noção de um tanque com cinco lados parecia estranha e sem precedentes na arquitetura da época, alimentando a ideia de que a descrição era puramente simbólica. No entanto, o mistério foi resolvido pelas escavações arqueológicas do século XX. O que se revelou não foi um único tanque de cinco lados, mas sim um complexo de dois tanques retangulares adjacentes, um superior e um inferior, separados por um dique ou parede central.  

Essa estrutura engenhosa fornecia uma solução perfeita para a descrição do evangelista. Havia um pórtico coberto em cada um dos quatro lados externos dos dois tanques (norte, sul, leste e oeste), e um quinto pórtico que corria sobre o muro de separação entre as duas piscinas, dividindo o complexo ao meio. O desenho, agora visível nos restos arqueológicos, valida com uma precisão impressionante a descrição de João, desmantelando a crítica secular de que o relato era um anacronismo geográfico.  

A descoberta dos “cinco pórticos” é mais do que uma mera coincidência. A precisão de João sobre a topografia e a estrutura de Jerusalém antes da sua destruição em 70 d.C., quando o Tanque de Betesda foi modificado e enterrado sob outras construções, sugere que o autor do evangelho tinha um conhecimento íntimo e de primeira mão da cidade. Isso enfraquece a tese de que o evangelho é um texto tardio, sem base em testemunho ocular, e o reposiciona como uma fonte histórica confiável para os eventos que descreve. O achado arqueológico serve como um “carimbo de data” e um atestado de autenticidade para a narrativa do evangelho.   A Tabela 1 a seguir ilustra a linha do tempo do sítio arqueológico, enquanto a Tabela 2 confronta diretamente as descrições do Evangelho de João com a evidência material desenterrada.

Período HistóricoDescrição do SítioFontes/Referências
Período do Segundo Templo (c. 200 a.C. – 70 d.C.)Construção dos dois tanques adjacentes, com cinco pórticos. Uso como reservatório de água para o Templo e, possivelmente, como mikvah para purificação ritual.João 5:2; Escavações de 1964; Conrad Schick, 1888.
Período Romano (1º século a.C. – 4º século d.C.)Transformação em um centro de cura greco-romano (Asclepion), dedicado a deuses como Fortuna e Asclepius.Evidência arqueológica de banhos e grutas;.
Período Bizantino (5º – 7º século d.C.)Construção de uma grande igreja bizantina sobre o sítio, dedicada à Virgem Maria e à cura do paralítico.Restos da Igreja de Santa Maria;.
Período Cruzado (12º século d.C.)Reconstrução e adição de um monastério e uma igreja menor sobre o dique central. Dedicação da grande igreja adjacente a Santa Ana.Restos do monastério e da Igreja de Santa Ana;.
Descrição do Evangelho de João 5Evidência ArqueológicaImplicações
“Perto da Porta das Ovelhas”Localização próxima ao Portão de Santo Estêvão, conhecido como Porta das Ovelhas.Validação da precisão geográfica de João, que tinha conhecimento íntimo da topografia de Jerusalém antes de 70 d.C..
“Cinco pórticos”Descoberta de dois tanques separados por um dique central com um pórtico, totalizando cinco pórticos.Refutação da crítica cética de que a descrição era alegórica, confirmando a precisão estrutural do evangelista.
“Grande multidão de doentes”Complexo de cura pagão (Asclepion) descoberto no local.Confirmação do contexto cultural, onde enfermos de diversas origens buscavam cura em centros rituais.
“Água agitada”Crença pagã nas águas curativas e rituais do Asclepion.A crença na agitação da água é um reflexo das superstições e práticas associadas aos cultos de cura greco-romanos.

O Ponto “Polêmico” Iluminado pela Arqueologia

A arqueologia oferece a chave para entender o trecho “polêmico” de João 5:3b-4, que, em algumas traduções, menciona um anjo que agitava a água e curava o primeiro a entrar. A maioria dos estudiosos concorda que esse verso não faz parte dos manuscritos mais antigos do Evangelho de João, sendo uma interpolação posterior. No entanto, a descoberta do contexto arqueológico (a presença do culto de Asclepius) explica por que esse verso foi adicionado. Ele reflete a crença popular e a superstição que permeavam o local, onde os enfermos realmente acreditavam que a “agitação da água” — provavelmente causada por fenômenos naturais de uma fonte intermitente ou por rituais sacerdotais — era o momento ideal para a cura. Portanto, mesmo não sendo uma parte original do texto, o verso capta com precisão o cenário cultural e a mentalidade do povo da época, confirmada pela evidência material.  

O que a arqueologia nos revela é que o Tanque de Betesda não era um mero local de purificação judaica, mas um centro de cura greco-romano. Banhos e grutas construídas pelos romanos foram encontrados no local, dedicados a deuses pagãos como Fortuna e, mais tarde, Asclepius, o deus da cura. A crença nesses centros era que os deuses se manifestavam na água, causando o “agitar” que era interpretado como o momento ideal para a cura. Isso transforma o milagre de Jesus de um simples ato de cura em uma confrontação direta com um sistema religioso pagão. O homem, um judeu, estava buscando salvação em um local de culto falso, aguardando por uma “intervenção divina” que era, na verdade, uma manifestação de superstição. Jesus, ao curá-lo, age com autoridade absoluta, confrontando o sistema de cura pagão e a ineficácia do ritual. Ele não espera a “água se agitar”, mas, sem rito ou superstição, simplesmente diz: “Levanta-te, toma o teu leito e anda”. A cura é instantânea e soberana, posicionando Jesus como a fonte definitiva de cura e salvação, em total contraste com as águas ineficazes do tanque pagão.  

Uma Tipologia Fascinante: O Significado dos 38 Anos

O evangelista João não é aleatório em seus detalhes. A informação de que o homem estava doente há trinta e oito anos não é apenas uma medida do seu sofrimento. O número carrega um peso simbólico que a arqueologia, ao revelar o contexto do local, torna ainda mais significativo. A duração da doença pode ser vista como uma poderosa metáfora para a paralisia espiritual da nação de Israel. O livro de Deuteronômio (2:14) relata que a nação de Israel vagou no deserto por 38 anos após o incidente de Cades-Barnéia, como punição por sua desobediência e incredulidade. O povo ficou “paralisado” e incapaz de entrar na Terra Prometida. A condição do homem no tanque pagão, estagnado e buscando cura em fontes erradas, pode ser vista como um reflexo da condição de Israel. Jesus, ao curar o homem, não apenas restaura sua mobilidade, mas também simbolicamente liberta o povo de sua longa estagnação espiritual, convidando-o a “andar” em uma nova direção.  

Mais do que uma História, uma Realidade

O Tanque de Betesda, um local há muito esquecido pela história, foi resgatado do silêncio pelos esforços da arqueologia. O que antes era considerado um mito ou uma alegoria, hoje é uma prova tangível da precisão histórica do evangelista João. A descoberta dos dois tanques separados por um pórtico central, a confirmação da sua proximidade com a Porta das Ovelhas e a revelação do seu uso como um centro de cura pagão, transformam radicalmente a nossa compreensão do milagre.  

A arqueologia, como uma ferramenta para aprofundar a compreensão do texto bíblico, transforma uma história bidimensional em uma experiência tridimensional, rica em contexto e significado. O milagre de Betesda, visto à luz da evidência material, é um lembrete poderoso da soberania de Jesus. Ele não apenas cura a paralisia física, mas também confronta a paralisia espiritual e a busca por cura em fontes vazias. A descoberta material reforça a convicção de que o Jesus do Novo Testamento agiu em um mundo real, complexo e contestado, onde sua autoridade e poder se destacavam de maneira singular. Ele não veio para validar superstições ou rituais, mas para oferecer a si mesmo como a verdadeira e única fonte de vida.  

Bibliografia

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WINDLE, Bryan. Dez Principais Descobertas em Arqueologia Bíblica Relacionadas ao Novo Testamento . Bible Archaeology Report, 19 de janeiro de 2019. Disponível em: https://biblearchaeologyreport.com/2019/01/19/top-ten-discoveries-in-biblical-archaeology-relating-to-the-new-testament/ . Acesso em: 18 de setembro de 2025.

AUTORIDADE DE ANTIQUIDADES DE ISRAEL. “Descobertas provam que os céticos da Bíblia estão errados” . Bíblia Messiânica, 2025. Disponível em: https://www.messianicbible.com/feature/found-governor-city-seal-verified-bible/ . Acesso em: 18 conjuntos. 2025.

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