O Espinho na Carne

O Espinho na Carne do Apóstolo Paulo

Uma Exposição da Soberania da Graça em 2 Coríntios 12 verso 7

⁶ Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve.
⁷ E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar.
⁸ Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim.

2 Coríntios 12:6-8

​O estudo da Teologia Sistemática Reformada, centrado na glória do Deus Triúno, nos leva invariavelmente ao exame das Escrituras, fonte inerrante e suficiente da verdade. Dentre os textos que demandam nossa mais profunda reverência e análise, o relato da aflição pessoal do Apóstolo Paulo, conhecido como “o espinho na carne” (segunda Coríntios 12 verso 7), se destaca como um dos mais cruciais para a compreensão da Graça de Deus e da Soberania Divina em meio ao sofrimento cristão.

​Quantas vezes nos deparamos com textos difíceis de explicar, cuja complexidade não reside na obscuridade da Palavra em si, mas em nossa tendência de interpretá-la subjetivamente, caindo na “mistificação” ou “espiritualização”? É vital, como servos da Palavra, evitar essa inclinação para o subjetivismo que pode distorcer a revelação divina. O apóstolo Paulo escreveu sua narrativa há milênios, e todo o contexto daquele tempo deve ser considerado.

​Para resgatar a intenção original do texto e evitar que nossa Teologia seja “baldada”, a metodologia correta a ser empregada é a Histórico-Gramatical. Esta abordagem hermenêutica busca o significado que o próprio autor humano, sob a direção do Espírito Santo, pretendeu transmitir, considerando a gramática, o contexto literário e o pano de fundo histórico. Desse modo, o intérprete se submete à autoridade da Palavra. Corre-se, assim, a rota segura da Sola Scriptura, crendo que “Toda a Escritura é DIVINAMENTE INSPIRADA e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (segunda Timóteo 3 verso 16).

​O cerne da questão sobre o espinho na carne não está primariamente na identificação exata da enfermidade (ou do tipo de aflição), mas no propósito teológico que Deus estabeleceu para ela: a glorificação do poder de Cristo em meio à fraqueza humana. É um paradoxo glorioso: a maior fraqueza de Paulo se tornou o cenário perfeito para a mais profunda revelação da Suficiência da Graça de Deus.

​Como teólogos reformados, nos dedicamos a expor a doutrina, o ensino que a Bíblia inteira nos transmite. Para tanto, o método é a chave, garantindo a fidelidade à revelação divina.

​A. A Submissão ao Método Histórico-Gramatical

​A Palavra de Deus, em sua natureza divino-humana, é a única fonte pela qual podemos ter o conhecimento certo do Pai e de seu Filho Jesus Cristo (João 17 verso 3). Nosso principal ofício é manejar bem a Palavra da Verdade (segunda Timóteo 2 verso 15). O método Histórico-Gramatical se impõe, pois busca o significado literal e contextual, fugindo de interpretações subjetivas que desviam da intenção autoral. A exegese correta (extrair o significado do texto) se opõe à eisegese (inserir significado no texto).

​A correção do método é fundamental: não buscamos a desconstrução crítica, mas o resgate da mensagem autoral. A exegese, que é o processo de interpretar as Escrituras, deve sempre submeter-se ao princípio de que o texto sagrado é fidedigno.

​B. A Autoridade e a Incontaminação das Escrituras

​O fundamento da Teologia Reformada repousa na inerrância e autoridade da Escritura Sagrada. A Bíblia não pode ser meramente lida como uma obra literária qualquer. Ela é divinamente inspirada (Theopneustos) e, como tal, incontaminada e perfeita (Salmo 19 verso 7). O Senhor Jesus, o Teólogo Perfeito, repreendeu a cegueira dos mestres de sua época por “NÃO SABERDES AS ESCRITURAS” nem o poder de Deus (Marcos 12 verso 24), mostrando que a falha não estava na clareza da Palavra, mas na dureza do coração.

​A aflição de Paulo não pode ser entendida fora de sua vida apostólica, sua conduta e a Providência Divina que a regia.

​A. O Passado de Paulo como Fundamento da Humildade

​O contexto mais amplo da vida de Paulo é o de um homem que experimentou a graça transformadora de Deus de forma dramática. Ele mesmo confessa sua conduta passada: “A mim, que dantes FUI BLASFEMO, e PERSEGUIDOR, e injurioso; mas alcancei misericórdia” (primeira Timóteo 1 verso 13). Ele era o “menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que PERSEGUI A IGREJA DE DEUS” (primeira Coríntios 15 verso 9).

​Essa consciência de sua indignidade e de seu zelo destrutivo contrasta com a sublime revelação que ele recebeu (segunda Coríntios 12 verso 1 ao 6). O contraste entre a excelência da revelação e a fraqueza da carne o impede de se gloriar em sua própria sabedoria ou realizações.

​B. A Soberania de Deus e a Humilhação Necessária

​A doutrina da Providência Divina nos ensina que Deus não apenas preserva e sustenta a criação, mas também governa ativamente, de modo que todas as coisas, grandes e pequenas, cumprem o seu propósito eterno. O sofrimento de Paulo, portanto, não foi acidental, mas ordenado soberanamente.

​O propósito claro é a humilhação do Apóstolo, “para que não me exaltasse sobremaneira” (segunda Coríntios 12 verso 7). O espinho na carne foi uma medida preventiva contra o orgulho que a “sobreexcelência das revelações” poderia gerar. O orgulho é a forma mais sutil de rebelião contra Deus, e Deus usou a dor para preservar o seu servo mais precioso.

A Tese do Espinho: Adversários e a Luta pelo Apostolado

​A exegese do termo “espinho na carne” (skolops te sarki, σκόλοψ τῇ σαρκί) deve ser compreendida à luz do contexto da própria epístola, onde Paulo defende seu apostolado contra opositores. O estudo em análise enfatiza que a aflição mais provável é de ordem relacional e ministerial.

​A. O “Mensageiro de Satanás” como Oposição Humana

​Paulo afirma que o espinho lhe foi dado por um “mensageiro de Satanás” (segunda Coríntios 12 verso 7). A tese em evidência, e que melhor se harmoniza com o contexto da carta, é a de que este mensageiro refere-se a opositores humanos, falsos apóstolos e adversários que constantemente confrontavam seu apostolado, lançando em seu rosto a memória de seu passado de perseguidor da Igreja.

​O termo Satanás (do hebraico śāṭān, e do grego Satanás, Σατανᾶς) significa literalmente “adversário” ou “acusador”. Assim, o mensageiro de Satanás poderia ser interpretado como um adversário/acusador humano (ou um grupo deles) que, incitados pelo Diabo, atacavam a autoridade de Paulo.

​Essa tese é fortalecida por Paulo, que em outras cartas relata as acusações que minavam seu ministério, questionando sua autoridade e, indiretamente, o Evangelho que ele pregava. O sofrimento de Paulo, neste caso, seria a dor emocional e ministerial causada por ter seu ministério constantemente confrontado com seu passado (o sangue dos mártires).

​B. A Conexão com a Profecia de Ananias

​Esta interpretação se conecta com a profecia dada a Ananias em Damasco sobre o que Paulo sofreria por amor ao nome de Jesus. O Senhor disse sobre Saulo: “Eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer por amor do meu nome” (Atos 9 verso 16). O sofrimento prometido não era apenas de ordem física, mas também a dor de ser um pária, constantemente lembrado de sua CONDUTA passada: “como sobremaneira PERSEGUIA a igreja de Deus e a assolava” (Gálatas 1 verso 13).

​O espinho, neste sentido, seria o constante ataque à sua legitimidade apostólica, uma dor lancinante (skolops) que, embora ministerial, afetava profundamente sua alma e corpo.

O Clímax Doxológico: A Suficiência da Graça

​O drama de Paulo atinge seu ápice na resposta de Deus (segunda Coríntios 12 verso 9): a rejeição do pedido de remoção da aflição e a proclamação da Suficiência da Graça.

​A. A Resposta Divina e a Natureza da Graça

​O apóstolo orou três vezes para que o espinho fosse removido (segunda Coríntios 12 verso 8), e a oração do homem de fé foi negada. A resposta de Deus é a doutrina central: “A minha graça te basta” (Ἀρκεῖ σοι ἡ χάρις μου, Arkei soi he charis mou).

​A Graça de Deus é a bondade imerecida para com aqueles que merecem punição. No contexto do espinho, ela é a provisão divina para o sustento e a força em meio à fraqueza. Ela é:

  1. Suficiente (Arkei): É a promessa de Deus de que seu favor e ajuda bastarão para que o crente permaneça fiel sob o fardo. A Graça de Deus não apenas perdoa, mas capacita e sustenta.
  2. Manifesta no Poder (Dynamis): A graça é a manifestação da misericórdia de Deus em favor do pecador, uma obra sobrenatural que nos dá vida e força.

​B. A Glória do Poder de Cristo na Fraqueza Humana

​A fraqueza de Paulo, sua humilhação (tapeinosis, ταπείνωσις), se tornou o cenário da manifestação do poder de Cristo (dynamis tou Christou, δύναμις τοῦ Χριστοῦ).

​Paulo conclui: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (segunda Coríntios 12 verso 9). Ele não se gloriaria em sua força humana, nem em suas revelações, mas na sua debilidade, porque é ali que o poder de Deus se aperfeiçoa (teleitai, τελεῖται), ou seja, é levado à sua conclusão ou plenitude.

​A fraqueza humana é o vaso escolhido para conter a glória de Deus. O Deus Onipotente usa a adversidade — mesmo a oposição implacável de adversários ministeriais — para a santificação de seu povo.

A Paz que Permanece na Graça Soberana

​O espinho na carne não se encerra na descrição da aflição, mas na exaltação do caráter de Deus. A suficiência da graça é a resposta de Deus à oração do servo fiel. A dor de Paulo, causada pelos adversários que constantemente traziam à tona seu passado de perseguidor (o mensageiro de Satanás), se transforma em um hino de louvor, e a aparente derrota se converte em glória.

​Esta interpretação, que vê no skolops te sarki a dor lancinante da oposição ministerial e o constante lembrete de seu passado, cumprindo a profecia de Atos 9 verso 16, harmoniza o texto com o contexto da Segunda Epístola aos Coríntios (uma defesa de seu apostolado) e com o significado de Satanás como “adversário/acusador”.

​O cristão é chamado a viver não em uma religião de autossuficiência e orgulho, mas em uma de humilde submissão à vontade soberana de Deus. O espinho na carne é, em última análise, a garantia de que a glória de Cristo se manifesta mais plenamente na vida daqueles que dependem inteiramente Dele. Que a Paz do Senhor Jesus permaneça em nós.

Cinco Pontos Relevantes do Estudo

  1. A Correção do Método Exegético: O estudo rigoroso do texto exige a aplicação do Método Histórico-Gramatical, rejeitando o subjetivismo e a mistificação para alcançar a verdadeira intenção do autor sagrado.
  2. A Causa e o Propósito do Espinho: A causa primária do espinho é a Soberania Divina, que o ordenou para prevenir o orgulho e a exaltação desmedida do Apóstolo Paulo, em contraste com a sobreexcelência das revelações (segunda Coríntios 12 verso 7).
  3. A Identificação do “Mensageiro de Satanás”: A tese mais coesa interpreta o “mensageiro de Satanás” como adversários humanos ou falsos apóstolos (em consonância com o significado de Satanás como “acusador/adversário”) que atacavam constantemente o apostolado de Paulo, lançando em seu rosto a lembrança de seu passado como perseguidor da Igreja.
  4. O Poder da Graça Suficiente (Ἀρκεῖ σοι ἡ χάρις μου): A Graça de Cristo é plenamente suficiente para a sustentação e capacitação do crente em qualquer fraqueza ou sofrimento, substituindo a necessidade da remoção da aflição pela Providência Sustentadora de Deus.
  5. A Doxologia na Fraqueza (ταπείνωσις): A fraqueza do crente (tapeinosis) é o cenário escolhido para a manifestação do Poder de Cristo (dynamis tou Christou), ensinando que a glória de Deus se aperfeiçoa (teleitai) não na força humana, mas na dependência total do poder divino (segunda Coríntios 12 verso 9 ao 10).

Bibliografia

​BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Campinas: Luz Para o Caminho, 1990.

BEEKE, Joel R.; SMALLEY, Paul M. Teologia Sistemática Reformada: Volume 1. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2020.

FERREIRA, Franklin. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2013.

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Editora Vida Nova, 2007.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

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