Prezados leitores do Viver é Cristo,
Quando Jesus expirou na cruz, o céu escureceu em pleno meio-dia e a terra tremeu (Mateus 27 verso 45 a 51). Um cenário de mistério e temor envolveu Jerusalém, enquanto o Filho de Deus atravessava os portais da morte. Mas surge a questão que há séculos desafia intérpretes: se Jesus prometeu estar “três dias e três noites” no coração da terra (Mateus 12 verso 40), como conciliar isso com o testemunho dos evangelhos de que Ele ressuscitou “ao terceiro dia”?
A resposta exige compreender tanto a cultura judaica de contagem de tempo quanto a dimensão profética das trevas que cobriram a terra na hora da morte do Salvador.
Morte e Ressurreição
A Profecia de Jesus e o Sinal de Jonas
Jesus declarou:
“Pois assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.”
(Mateus 12 verso 40, ARA).
Ao mesmo tempo, anunciou claramente:
“Desde então começou Jesus a mostrar a seus discípulos que era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas da parte dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia.”
(Mateus 16 verso 21, ARA).
Portanto, temos duas expressões:
- “Três dias e três noites” → fórmula de Jonas, que remete à necessidade de se ter 3 dias e 3 noites.
- “No terceiro dia” → fórmula judaica inclusiva, em que qualquer parte de um dia é contada como um todo.
Cronologia da Crucificação e Morte:
- Jesus foi condenado e iniciou sua caminhada para o Calvário antes do meio-dia da sexta-feira.
- O Evangelho de Marcos indica que a crucificação ocorreu por volta da terceira hora do dia (9 horas da manhã, pelo tempo judaico).
- O Evangelho de João menciona que Jesus estava em julgamento por volta da hora sexta (ao meio-dia, pelo sistema de tempo romano, ou 6 da manhã, em outra interpretação).
- Sua morte ocorreu por volta da hora nona (aproximadamente três horas da tarde da sexta-feira).
- Os judeus solicitaram a remoção dos corpos da cruz para não atrapalhar a festa da Páscoa, que seria no sábado.
A Ressurreição:
- Maria Madalena foi ao sepulcro no primeiro dia da semana, domingo, e Jesus já havia ressuscitado.
- Isso implica que Jesus ressuscitou em algum momento da manhã de domingo.
A Questão dos “Três Dias e Três Noites”:
A profecia de Jesus de que Ele ficaria “três dias e três noites” no coração da terra (Mateus 12 verso 40) é confrontada com o relato de Sua morte na sexta-feira e ressurreição no domingo.
Se Jesus morreu na tarde de sexta-feira e ressuscitou na manhã de domingo, Ele esteve no túmulo por cerca de 36-38 horas, não por 72 horas completas.
Soluções Propostas pelas Fontes para a Aparente Contradição:
Crucificação na Quarta-feira:
Alguns estudiosos argumentam que Jesus foi crucificado na quarta-feira para que a expressão “três dias e três noites” (72 horas) fosse cumprida literalmente antes da ressurreição no domingo. Eles apontam que a Páscoa não tinha um dia fixo na sexta-feira.
A comparação é feita diretamente com Jonas, que esteve literalmente 72 horas no ventre do peixe.
Para que isso se cumpra, Jesus não poderia ter morrido na sexta-feira, mas sim na quarta-feira.
Os defensores dessa visão argumentam que a Bíblia nunca afirma explicitamente a crucificação em uma sexta-feira, mas sim que o dia seguinte era um “sábado” (šabbāt), termo que para os judeus poderia se referir a qualquer feriado ou festa (como o primeiro dia da Festa dos Pães Asmos) e não apenas o sábado semanal.
O calendário hebraico é usado como base, indicando que o 14º dia de Abibe (Pessach) – dia da imolação do cordeiro – poderia ter caído em uma quarta-feira nos anos prováveis da crucificação (30 ou 31 d.C.).
A cronologia proposta por esta visão é:
- Quarta-feira à tarde (sepultamento) até quinta-feira à tarde: 1º dia. Sepultado antes do início do Shabat cerimonial na quinta-feira, 15 de Abibe.
- Quarta-feira à noite: 1ª noite.
- Quinta-feira (15 de Abibe) de manhã: 1º dia.
- Quinta-feira à noite (16 de Abibe): 2ª noite.
- Sexta-feira (16 de Abibe) de manhã: 2º dia.
- Sexta-feira à noite (17 de Abibe): 3ª noite.
- Sábado (17 de Abibe) de manhã: 3º dia.
A ressurreição, portanto, ocorreria na primeira hora do domingo, por volta das 6h da manhã, antes do sol nascer, após o pôr do sol do Shabat (sábado).
É notado que os Evangelhos mencionam dois sábados distintos: um “grande dia” de Sábado (o primeiro dia da Festa dos Pães Asmos, uma quinta-feira) e o Sábado semanal (do pôr do sol de sexta-feira ao pôr do sol do sábado).
A expressão grega “μετὰ τρεῖς ἡμέρας” (meta treis hēmeras), traduzida como “depois de três dias” (Marcos 8 verso 31), é interpretada como exigindo três dias completos, o que se encaixaria melhor na cronologia da quarta-feira.
A Contagem Judaica dos Dias
No judaísmo do primeiro século, o dia começava ao pôr-do-sol (cf. Gênesis 1 verso 5; levítico 23 verso 32). Além disso, qualquer parte de um dia era considerada como um dia inteiro.
Exemplo bíblico:
Ester pede jejum de “três dias, noite e dia” (Ester 4 verso 16).
Contudo, no terceiro dia ela já comparece diante do rei (Ester 5 verso 1).
Ou seja, não eram 72 horas exatas, mas uma expressão idiomática.
Assim, aplicando a Jesus:
- Sexta-feira (parte do dia): já conta como o primeiro dia.
- Sábado (dia completo): o segundo dia.
- Domingo (madrugada/ parte do amanhecer): o terceiro dia.
Esta é a interpretação tradicional e mais aceita pela Igreja. Jesus foi crucificado na sexta-feira à tarde, por volta da nona hora (três da tarde). Ele ressuscitou na manhã de domingo, o primeiro dia da semana.
Nesse cenário, Jesus teria ficado no túmulo por aproximadamente 36 a 38 horas, o que não corresponde a 72 horas. A aparente contradição é resolvida entendendo a expressão “três dias e três noites” como um idiomatismo hebraico ou figura de linguagem, onde qualquer parte de um dia era contada como um dia inteiro.
As Trevas Sobrenaturais como “Noite Profética”
Aqui entra o detalhe e que enriquece a interpretação.
Os evangelhos registram:
“Desde a hora sexta até a hora nona, houve trevas sobre toda a terra. Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eli, Eli, lamá sabactâni? … E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito.”
(Mateus 27 versos 45, 46 e 50, ARA).
O evangelista Lucas acrescenta:
“Já era quase a hora sexta, e escureceu-se o sol; e houve trevas sobre toda a terra até a hora nona.”
(Lucas 23 verso 44, ARA).
Essas trevas não eram um eclipse natural (pois a Páscoa acontece em lua cheia), mas um sinal sobrenatural de juízo e luto profético (Amós 8 versos 9 e 10).
“E perto da hora nona…” (Mateus 27 verso 46a), Jesus entrega seu espírito, ainda naquele momento em que o Senhor disse que o sol iria se pôr, ou seja, podemos inferir que houve um novo dia para este evento.
Aqui encontramos uma chave:
- Sexta-feira, antes do sepultamento, o dia se transformou em noite.
- Portanto, temos:
- Sexta-feira → dia normal (manhã e início da tarde).
- Sexta-feira, do meio-dia às 15h → noite sobrenatural (as trevas).
- Sexta-feira ao pôr-do-sol → início da noite natural, início do sábado.
Assim, já no primeiro ciclo temos dia + noite, de modo que a profecia de Jonas se cumpre não apenas em cronologia, mas em simbologia profética.
Quadro Resumido da Contagem
| Dia Judaico | Evento | Referência |
| Sexta (Dia da Preparação) | Morte próxima às 15h; trevas sobrenaturais; sepultamento antes do pôr-do-sol | Mateus 27 versos 45 a 50; João 19 verso 42 |
| Sábado (Shabat) | Corpo no sepulcro o dia inteiro | Lucas 23 verso 56 |
| Domingo (primeiro dia da semana) | Ressurreição ao amanhecer | Mateus 28 verso 1 a 6; João 20 verso 1 |
Conciliação Teológica
- Contagem inclusiva judaica → garante a exatidão de “ao terceiro dia”.
- Jesus morreu na Quarta-feira → Esta hipótese defende que Jesus permaneceu no sepulcro por um período completo de três dias e três noites (72 horas), interpretando a expressão de Mateus 12 verso 40 de forma literal e não simbólica. É corroborada com a expressão contida “depois de três dias” (Marcos 8 verso 31).
- Trevas sobrenaturais na sexta-feira → justificam a menção de “três noites e 3 dias”, pois a criação mesma testemunhou o milagre de uma nova noite, dentro de 6ª feira.
A aparente contradição desaparece quando compreendemos estes aspectos. Assim, Jesus não apenas cumpriu o tempo anunciado, mas também deu à história um sinal profético: o Sol da Justiça (Malaquias 4 verso 2) foi ocultado, para que a luz da ressurreição brilhasse ainda mais no terceiro dia.
Bibliografia
- MORAES, Elias Soares de. Perguntas Difíceis de Responder, Vol. 03.
- GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e Contradições da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão
- BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
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