Prepare-se para uma jornada fascinante pelas profundezas das Escrituras, explorando um debate que ecoa desde os primeiros dias da igreja e continua a moldar nossa compreensão de Jesus Cristo e da Nova Aliança. Recentemente, a obra “Jesus and the Law of Moses” de Paul T. Sloan trouxe à tona questões cruciais sobre como interpretamos o papel de Cristo diante da antiga Lei.
Neste estudo, mergulharemos nas percepções de Samuel Parkison e Ryan Currie, que, ao revisarem o livro de Sloan, nos convidam a refletir sobre a essência do evangelho. Eles nos guiam através de uma análise que não só destaca os pontos fortes da pesquisa de Sloan, mas também aponta para desafios teológicos significativos. É uma discussão que nos fará ‘ver’ Jesus de uma nova maneira.
Qual a Visão de Paul Sloan sobre Jesus e a Lei de Moisés?
Paul Sloan defende que o ministério de Cristo, conforme narrado nos Evangelhos Sinóticos, centraliza-se em seu papel como o Messias escatológico. Ele veio para restaurar Israel, agindo como um intérprete autorizado da Lei mosaica. Para Sloan, Jesus arbitrava debates sobre a aplicação da Lei à luz do Jubileu escatológico que inaugurava, restaurando o povo de Deus.
Segundo o autor, as contendas de Jesus com os fariseus não eram uma rejeição da Lei, mas uma correção de suas interpretações equivocadas. Eles falhavam em reconhecer o significado escatológico da vinda de Jesus. Sloan sugere que o problema dos fariseus era não saber “que tempo era”, aplicando a Lei em tempos ordinários quando a restauração de Israel já estava em curso.
Ele argumenta que Jesus via o Sábado como um microcosmo do Jubileu, tornando necessário realizar nele o que o Sábado, na sua essência de Jubileu, exigia. Isso significava a libertação do cativeiro, do domínio de Satanás e da morte. Sloan demonstra convincentemente como as curas de Cristo correspondiam à reversão das maldições levíticas, um testemunho vibrante de sua autoridade.
Imagine a cena: os discípulos de Jesus colhendo espigas no Sábado, e os fariseus acusando-os! Jesus, com sua autoridade divina, responde, apontando para precedentes bíblicos. Ele cita o rei Davi, que “violou” a lei ao comer os pães da proposição em sua necessidade (1 Samuel 21:1-6). E os sacerdotes, que “profanavam” o Sábado no templo, mas eram inocentes (Mateus 12:1-8).
Sloan enfatiza que a missão de Jesus tem precedência sobre rituais e mandamentos que seriam bons em outras circunstâncias. Cristo é o “algo maior que o templo” (Mateus 12:6), e sua missão, junto com a dos discípulos, sobrepõe-se às observâncias ordinárias da Lei. Contudo, essa força argumentativa vem com uma ressalva importante: Jesus é também o Senhor do Sábado e o cumprimento do templo, inaugurando uma nova realidade escatológica.
Um Confronto de Entendimentos: A Lei e o Evangelho
A primeira grande objeção levantada por Parkison e Currie é que Sloan cria uma falsa dicotomia ao contrastar sua abordagem com a distinção entre lei e evangelho na tradição Reformada. Ele parece se basear em caricaturas populares de Jesus e dos fariseus para refutar a ideia de que Cristo lidou com o legalismo.
A distinção entre lei e evangelho, na verdade, nunca visou denegrir a Lei. Os Reformadores, seguindo Paulo e o próprio Jesus, rejeitaram a tentativa de estabelecer a própria justiça pela observância da Lei. A Confissão Batista de Londres de 1689 expressa essa visão claramente: ‘A lei revela e condena o pecado, mas também instrui as pessoas na retidão. A lei não é impotente, mas é completamente impotente para justificar (por exemplo, Gálatas 2:16).’
Embora o legalismo caricato possa não ser o foco de todo debate de Jesus nos Sinóticos, é inegável que Cristo confrontou uma forma de legalismo. Pensemos na parábola do fariseu e do publicano. Lucas 18:9-14 nos transporta para o templo, onde um fariseu orgulhosamente ora: ‘Ó Deus, graças te dou porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano.’ Em contraste, o publicano clama por misericórdia. Jesus conclui: ‘Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e quem a si mesmo se humilha será exaltado.’ Não é um claro repúdio à autojustificação pela Lei?
E o que dizer de Marcos 2:17? Jesus declara: ‘Não vim chamar justos, mas pecadores.’ Ele não está dizendo que existem pessoas verdadeiramente justas que não precisam dele. Pelo contrário, está se referindo àqueles que se julgam justos e, portanto, se fecham à sua mensagem. Jesus veio para chamar aqueles que reconhecem sua falta de retidão, que entendem que não podem alcançar a Deus por seus próprios méritos na Lei. O mau uso da Lei para estabelecer a própria justiça estava sim presente nos dias de Jesus.
Cristologia Diminuída? O Papel de Jesus Além do Intérprete
Uma das mais sérias preocupações de Parkison e Currie é a Christologia de Sloan, que, em sua visão, é “diminuída”. Cristo parece ser reduzido a pouco mais que um intérprete autorizado da Lei. Embora isso aborde seu ofício profético, a impressão é que seus ofícios sacerdotal e régio encontram pouca ressonância nos Evangelhos Sinóticos, conforme a leitura de Sloan.
Para Sloan, a obediência de Cristo à Lei não é vicária. Quando Cristo “cumpre” a Lei, ele meramente “mantém” o padrão correto, um padrão que ele espera que seu povo cumpra por si mesmo. Não há espaço em sua proposta para a obediência passiva de Cristo – sua vida de sofrimento que culminou na morte, tornando seu povo “inocente” por sua propiciação ou sacrifício expiatório. Nem para a obediência ativa de Cristo – seu cumprimento da Lei de Deus que torna seu povo “justo”.
Lembremos de Mateus 5:17-18, onde Jesus diz: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo se cumpra.” Sloan interpreta isso como Jesus vindo para fazer o que a Lei e os Profetas exigem, e que tais mandamentos perduram “até que tudo se cumpra”. Mas a questão é: como se cumprem? Jesus, em sua visão, não cumpre os padrões da Lei em nome de seu povo, mas sim os defende e os clarifica para que eles os cumpram por conta própria.
Essa abordagem sugere que Cristo faz pouco mais do que encorajar as pessoas a se esforçarem mais. Mas a beleza do evangelho é que Jesus fez por nós o que jamais poderíamos fazer por nós mesmos. Ele não apenas nos mostrou o caminho, mas pavimentou-o com sua obediência perfeita e seu sacrifício incomparável, oferecendo-nos uma justiça que não é nossa.
A Morte de Cristo: Sacrifício Expiatório ou Disciplina Aliancista?
O ponto mais problemático da tese de Sloan, segundo os revisores, reside em sua compreensão da cruz. Ele argumenta que o derramamento de sangue de Jesus “não é apresentado como um sacrifício expiatório no sentido ‘técnico'”. Para ele, a morte de Jesus não atende às estipulações da Lei para um sacrifício, sendo, portanto, “não sacrificial”.
Sloan interpreta a morte de Cristo como uma “endurance da disciplina da aliança”, através da qual ela se esgota para aqueles que se arrependem e seguem as instruções de Jesus. Ele parece implicar que o “arrepender-se e seguir as instruções” significa viver em conformidade com a Lei, conforme Jesus a ensina. Assim, a observância contínua da Lei seria um componente essencial do arrependimento.
No entanto, nós, como crentes, nos apegamos firmemente à linguagem do “sacrifício expiatório”. E não o fazemos de forma metafórica, mas sim porque cada sacrifício da Antiga Aliança era uma metáfora, uma sombra, um sinal apontando para o verdadeiro e definitivo sacrifício de expiação: a morte de Cristo. Todos os rituais antigos, com suas ofertas e sangue derramado, eram ensaios divinos para a grande performance final no Calvário.
A Bíblia nos convida a “ver” as Escrituras como um todo coeso. Isaías 53 pinta um quadro vívido do Servo Sofredor, que “levou sobre si as nossas enfermidades” e “pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53:4-5). Os Evangelhos Sinóticos ecoam essa profecia. Marcos 10:45 nos revela Jesus declarando: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” A palavra grega para “resgate” (λύτρον) evoca a ideia de um preço pago para libertar.
Podemos ver a alusão a Isaías 53 em Marcos 14:61, quando Jesus permanece em silêncio “como um cordeiro” diante de seus acusadores. E Lucas 22:37 cita explicitamente: “Ele foi contado com os transgressores.” Estes não são apenas paralelos textuais; são a fundação teológica da compreensão de Jesus sobre sua própria morte. Não é um sacrifício expiatório no sentido mais puro e eficaz?
Sloan traça um contraste acentuado entre a morte de Cristo como “o sangue da aliança” e “sacrifício expiatório”. Mas por que escolher? Por que a “bifurcação” entre a morte de Cristo ser um sacrifício, uma expiação ou a promulgação de uma aliança? O sangue derramado na Páscoa (Êxodo 12), na confirmação da Antiga Aliança (Êxodo 24) e na consagração dos sacerdotes (Êxodo 29), juntamente com o sangue do Dia da Expiação (Levítico 16), não apontam para o mesmo e glorioso Referente – a Páscoa de Cristo?
Dizer que a morte de Jesus não é um sacrifício expiatório porque foi realizada em um “espaço profano por não-sacerdotes” é exigir demais de textos que anteciparam uma realidade maior! É o erro de forçar a substância de Cristo a se conformar à sombra da Lei. O livro de Hebreus argumenta isso de forma poderosa ao longo de vários capítulos, mostrando que o sacrifício de Cristo é infinitamente superior e o cumprimento de todos os sacrifícios anteriores (Hebreus 4:14–10:18).
Pensemos no momento climático do Evangelho de Mateus. Imediatamente após a morte de Jesus, o véu do templo se rasga de alto a baixo (Mateus 27:51). Essa imagem poderosa simboliza que o caminho para Deus foi aberto de uma vez por todas. O templo e suas leis não são mais necessários da mesma forma. O sacrifício de Jesus não é apenas sacrificial na natureza; é o sacrifício supremo, a revelação final da vontade de Deus, que anula e cumpre todos os outros.
A Lei de Moisés na Nova Aliança: Para Quem e Como?
Aqui chegamos a outra questão fundamental: a observância contínua da Lei de Moisés na Nova Aliança. Sloan argumenta que Jesus “ensina seus companheiros judeus a guardar todos os aspectos da Lei, desde os Dez Mandamentos e o amor ao próximo até os regulamentos de pureza e as exigências de dízimo” (p. 215). Isso inclui a circuncisão, rituais cultuais, Sábados e festivais.
Essa é uma afirmação surpreendente. A interpretação tradicional do Novo Testamento enfatiza que a morte e ressurreição de Cristo inauguram uma Nova Aliança que não exige a observância estrita da Lei Mosaica, mas sim a obediência à “lei de Cristo” (1 Coríntios 9:21; Gálatas 6:2), que é o cumprimento da Lei.
Vamos voltar aos “judaizantes” que Paulo confrontou. Eles insistiam: “É necessário circuncidá-los [os gentios] e mandá-los observar a lei de Moisés” (Atos 15:5). Sloan simpatiza com essa perspectiva, vendo-a como um desejo de inclusão. Contudo, essa visão, que amarra a consciência dos crentes, especialmente os judeus, à guarda da Lei cerimonial, foi abolida e está passando (Efésios 2:15; Hebreus 8:13; 9:9–10).
As epístolas de Gálatas e Hebreus são faróis de luz nesse debate. Em Gálatas 5:1-3, Paulo adverte: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão.” Ele nos alerta que, se buscarmos a justificação pela Lei, nos tornamos devedores de guardá-la inteiramente. Em Hebreus 9:10, lemos que a Antiga Aliança consistia em “alimentos, bebidas e diversas abluções, e de ordenanças da carne, impostas até ao tempo da reforma”.
A destruição do templo em 70 d.C. foi a confirmação divina da teologia de Hebreus: a Antiga Aliança e suas sombras apontavam para Cristo, e seus rituais estavam se tornando obsoletos. A Nova Aliança, por sua vez, unifica o povo de Deus, formando “um novo homem” em Cristo, eliminando as barreiras entre judeus e gentios (Efésios 2:11-22). João 10:14-18 fala de “um só rebanho e um só Pastor”. Como isso se encaixa em programas de obediência fundamentalmente diferentes?
Se judeus cristãos são obrigados a observar a Lei, o que isso significa após 70 d.C., com o templo destruído? Isso levaria a um “judaísmo rabínico” para os crentes? Isso não seria irônico, já que Cristo veio para encerrar o exílio e inaugurar o Jubileu escatológico? Como a “restauração” de Israel poderia parecer idêntica ao seu tempo de exílio?
O Legado de um Debate: Compreendendo a Profundidade da Obra de Cristo
O debate sobre a Lei de Moisés e a Nova Aliança é mais do que uma mera discussão acadêmica; ele toca o cerne da liberdade oferecida no evangelho. A obra de Paul Sloan, embora ofereça insights e uma prosa envolvente, falha em abraçar a radical “novidade” da Nova Aliança e a plenitude da obra de Cristo.
As conclusões de Sloan, de que a morte de Cristo não é um sacrifício expiatório e que os crentes judeus devem continuar a observar a Lei cerimonial, colidem com o testemunho consistente de todo o Novo Testamento. O Novo Testamento nos convida a uma visão mais ampla, onde a Lei encontra seu cumprimento em Jesus, e o crente é chamado a uma nova forma de obediência, guiada pelo Espírito Santo e pela “lei de Cristo”.
É essencial que, ao estudar as Escrituras, não nos limitemos a silos teológicos. A Bíblia é uma narrativa unificada da redenção de Deus. A morte de Cristo é, de fato, sacrificial. É o ápice de todas as profecias e o cumprimento de todas as sombras da Antiga Aliança. Ela abriu o caminho para a presença de Deus, e não devemos obscurecer essa verdade monumental.
Ao final desta jornada, somos desafiados a uma reflexão profunda. Estamos nós, como crentes, compreendendo plenamente a liberdade e a responsabilidade que nos foram dadas em Cristo? Estamos vivendo à luz da Nova Aliança, desfrutando da justiça que nos foi imputada pela obediência perfeita de Jesus e pela eficácia de seu sacrifício? Ou estamos, de alguma forma, presos a um “jugo de escravidão”?
Que possamos, com um coração ardente e uma mente aberta, buscar discernir os tempos e a vontade de Deus para nossas vidas, guiados pela Palavra e pelo Espírito Santo. A obra de Cristo é completa, perfeita e plenamente suficiente. Ele não veio apenas para interpretar, mas para transformar, redimir e nos dar uma nova vida em abundância. Isso é o evangelho! Para aprofundar seu entendimento sobre a grandiosidade da Nova Aliança, veja nosso artigo relacionado: O Mistério da Cruz que Redime
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