A Primeira Evidência Arqueológica da Casa de Davi
A Inscrição de Tel Dã é uma das descobertas arqueológicas mais significativas relacionadas à Bíblia. Trata-se de uma estela fragmentada, datada do século IX a.C., encontrada em 1993 em Tel Dã, no norte de Israel, durante escavações lideradas pelo arqueólogo Avraham Biran. A inscrição, escrita em aramaico, menciona a “Casa de Davi”, representando a primeira referência extrabíblica ao rei Davi e sua dinastia.
A estela foi descoberta reutilizada como material de construção em uma parede antiga, e sua identificação foi possível graças à observação atenta de um membro da equipe de escavação. A inscrição relata as vitórias de um rei arameu, provavelmente Hazael de Damasco, sobre os reis de Israel e da “Casa de Davi”, corroborando relatos bíblicos encontrados em 2 Reis 8 a 10.
A autenticidade da inscrição é amplamente aceita pela comunidade acadêmica, embora tenha havido debates sobre a interpretação do termo “Casa de Davi”. Alguns estudiosos sugeriram que poderia se referir a um local ou ter outro significado, mas a maioria concorda que se trata de uma referência à dinastia davídica.
Atualmente, a Inscrição de Tel Dã está em exposição no Museu de Israel, em Jerusalém, e continua sendo um testemunho arqueológico crucial que conecta os relatos bíblicos a evidências históricas tangíveis.
1. O Contexto Histórico e Arqueológico de Tel Dã
Antes de entendermos a importância da inscrição que menciona a “Casa de Davi”, é necessário situar o local onde ela foi encontrada: Tel Dã, uma das cidades mais emblemáticas do norte de Israel, mencionada frequentemente nas Escrituras e com uma longa e complexa história que remonta aos tempos dos patriarcas.
1.1. Onde fica Tel Dã e por que ela é importante?

Tel Dã está localizada na região norte do atual Estado de Israel, próxima à fronteira com o Líbano, nas fontes do rio Jordão. É um dos sítios arqueológicos mais férteis e antigos do país, com camadas de ocupação que remontam ao Neolítico. Na Bíblia, a cidade aparece originalmente com o nome de Laís, habitada pelos sidônios (Juízes 18 versos 7 e 27). No período dos juízes, foi conquistada pelos membros da tribo de Dã, que a renomearam com o nome do seu ancestral (Juízes 18 verso 29). Dali em diante, a cidade passou a ser conhecida como o ponto mais ao norte do reino de Israel, o que gerou a clássica expressão bíblica: “de Dã até Berseba” (cf. Juízes 20 versos 1; primeira Samuel 3 verso 20).
Além de sua localização geográfica estratégica, Tel Dã era também um importante centro religioso e militar. Após a divisão do Reino Unido de Israel, Jeroboão I estabeleceu ali um centro de culto rival ao de Jerusalém, com a instalação de um bezerro de ouro (primeira Reis 12 versos 28 a 30). Isso faz de Tel Dã um local simbólico da cisão espiritual e política entre os reinos do norte (Israel) e do sul (Judá).
Arqueologicamente, isso se traduz em vestígios de estruturas monumentais, muralhas, portões, palácios e, claro, a famosa estela fragmentada, que é o objeto central deste estudo.
1.2. As escavações em Tel Dã: quem as liderou?
A redescoberta arqueológica de Tel Dã teve início no final dos anos 1960, mas o marco decisivo ocorreu sob a liderança do arqueólogo israelense Avraham Biran, do Departamento de Antiguidades de Israel (atualmente parte da Autoridade de Antiguidades de Israel). Durante mais de três décadas, Biran conduziu escavações sistemáticas no sítio, revelando estruturas de importância bíblica, como o portão cananeu da Idade do Bronze — um dos mais antigos preservados em Israel — e o santuário israelita descrito em 1 Reis.
Porém, foi em 1993, durante uma dessas escavações, que algo inesperado aconteceu. Enquanto examinavam blocos de pedra reutilizados em uma parede mais recente, um dos estudantes encontrou fragmentos de uma estela contendo inscrições em aramaico antigo. Era a Estela de Tel Dã, cujo conteúdo viria a mudar para sempre a discussão sobre a historicidade de Davi.
1.3. O contexto político do século IX a.C.
A inscrição de Tel Dã foi datada por paleografia e contexto arqueológico ao século IX a.C., aproximadamente entre os anos 840–830 a.C. Esse período corresponde ao reinado de Jeorão, rei de Israel, e Acazias, rei de Judá (segunda Reis 8 versos 16 a 29), ambos contemporâneos de Hazael, rei de Damasco, um dos mais importantes reis arameus.
É justamente esse o cenário retratado na estela: um rei de Damasco (possivelmente Hazael) afirma ter derrotado os reis de Israel e de “Bet Davi” (Casa de Davi). Isso se harmoniza com o relato bíblico que descreve as incursões de Hazael contra os dois reinos (cf. segunda Reis 8 versos 28 e 29; 10 versos 32 e 33).
É importante ressaltar que, para que um rei inimigo de Israel e Judá se referisse a uma “Casa de Davi”, essa dinastia deveria ser reconhecida politicamente não apenas dentro do reino do sul (Judá), mas também por nações estrangeiras. Isso demonstra que Davi, ou ao menos a dinastia que leva seu nome, era uma entidade geopolítica real e influente, menos de dois séculos após sua suposta existência.
1.4. Tel Dã e os paralelos bíblicos
A Bíblia cita Tel Dã em diversos momentos:
- Como um local de apostasia religiosa (primeira Reis 12 versos 28 a 30);
- Como uma das extremidades geográficas do Israel bíblico (Juízes 20 verso 1);
- E, de forma indireta, nos relatos de guerra entre Aram (Síria) e os reinos de Israel e Judá (segunda Reis 8 a 10), os mesmos eventos que aparecem refletidos na estela.
O achado arqueológico não apenas complementa os textos bíblicos, ele os confirma com materialidade. A cidade de Tel Dã, portanto, passa a ser não apenas um lugar mencionado nas Escrituras, mas também um lugar onde a arqueologia tocou, literalmente, a narrativa bíblica com as mãos.
2. A Descoberta da Estela – O Dia em que Davi Voltou à História
Se há momentos em que a história parece mudar de direção silenciosamente, a descoberta da Inscrição de Tel Dã é um desses momentos. Não houve trombetas, nem manchetes globais naquele dia. Foi apenas mais uma manhã quente em 1993, nas escavações de verão em um antigo monte no norte de Israel. E foi ali, no que antes parecia ser apenas mais uma pedra de uma muralha antiga, que algo falou. Não com voz humana, mas com letras incisas que ecoaram por milênios: “Casa de Davi”.
2.1. Como foi encontrada a estela?
Durante os trabalhos de escavação conduzidos por Avraham Biran, diretor da equipe da Autoridade de Antiguidades de Israel, uma série de pedras reutilizadas foram descobertas na estrutura de uma antiga parede. Entre elas, um estudante chamado Gila Cook notou sinais de inscrições em uma dessas pedras, algo que se revelou ser muito mais significativo do que qualquer um poderia esperar.

A peça em questão fazia parte de uma estela (uma laje de pedra esculpida com texto), que originalmente teria sido erguida como monumento comemorativo por um rei inimigo de Israel, provavelmente Hazael, rei de Damasco. A pedra fora quebrada e reutilizada em construções posteriores, mas os fragmentos ainda traziam palavras legíveis.
Três fragmentos foram descobertos, e juntos formam uma inscrição parcial de cerca de 13 linhas. Ainda que incompleta, o texto oferece conteúdo explosivo: menciona vitórias militares sobre Israel e Judá, e fala diretamente de uma casa real chamada “Casa de Davi” (“bytdwd” em aramaico antigo).
2.2. A leitura epigráfica e sua importância
A decifração da estela foi feita por renomados epigrafistas como Joseph Naveh e André Lemaire, que rapidamente reconheceram a importância do achado. O trecho mais impactante dizia:
“… Eu matei [Jeorão, filho de Acabe] rei de Israel, e [matei] Acazias, filho de [Jeorão], rei da Casa de Davi…”
Essa frase confirma três coisas extremamente relevantes:
- A menção direta à Casa de Davi como uma dinastia real reconhecida;
- A presença de dois reis mencionados na Bíblia: Jeorão (rei de Israel) e Acazias (rei de Judá);
- O contexto político de guerra entre Damasco e os dois reinos bíblicos, perfeitamente alinhado com segunda Reis 8 a 10.
A expressão “Casa de Davi” é notável por ter sido escrita por um rei inimigo de Israel, o que elimina qualquer possibilidade de que tenha sido uma criação tardia dos próprios israelitas como propaganda religiosa.
2.3. O impacto entre estudiosos
A comunidade acadêmica reagiu com surpresa e entusiasmo. Por décadas, muitos estudiosos haviam duvidado da existência histórica de Davi, alegando que ele seria uma figura literária construída séculos depois para fortalecer a identidade nacional de Judá.
Com a descoberta da inscrição, essa tese enfraqueceu substancialmente. William G. Dever, um dos arqueólogos mais respeitados na área bíblica, afirmou:
“A Estela de Tel Dã é a mais significativa evidência extrabíblica de que Davi realmente existiu e que sua dinastia era conhecida.”
É claro que nem todos aceitaram sem reservas. Alguns sugeriram que a palavra “Davi” poderia ter outro significado, como uma toponímia ou termo comum. Mas a estrutura do texto, o contexto e a gramática aramaica reforçam o entendimento majoritário: trata-se de um título dinástico, exatamente como “Casa de Omri” também aparece em outras inscrições da antiguidade.
Além disso, outras descobertas posteriores, como a reinterpretação da Estela de Mesa (Moabe), também passaram a fazer menção à “Casa de Davi”, reforçando ainda mais essa linha interpretativa.
2.4. Paralelos com o texto bíblico
A Bíblia registra, que os reis Jeorão de Israel e Acazias de Judá foram atacados por Hazael, rei da Síria (Aram), exatamente como mencionado na estela:
“Então Jeorão partiu para lutar contra Hazael, rei da Síria […] E Acazias, filho de Jeorão, rei de Judá, desceu para visitar Jeorão, filho de Acabe, em Jezreel, porque estava doente.”
(segunda Reis 8 versos 28 e 29)
O entrelaçamento entre texto bíblico e inscrição arqueológica aqui é fascinante. Uma narrativa registrada em pergaminho e uma declaração esculpida em pedra, de inimigos entre si, coincidem em nomes, dinastias e eventos.
Isso prova que a Bíblia é confiável? Para muitos, sim. Para outros, pelo menos, mostra que ela não é uma ficção mitológica fabricada séculos depois, mas sim um documento ancorado em eventos e personagens reais da história do Oriente Médio.
3. “Casa de Davi”: Um Termo Carregado de História
A inscrição de Tel Dã não menciona apenas “Davi” como um nome qualquer. O que ela registra é algo bem mais significativo: a expressão “Casa de Davi” (em aramaico: bytdwd). Esse detalhe, aparentemente simples, revela uma profundidade histórica e política que vai muito além de um indivíduo. Estamos falando de uma dinastia real reconhecida internacionalmente, menos de dois séculos após sua fundação, e isso é enorme.
3.1. O peso dinástico da expressão
Na tradição do Antigo Oriente Próximo, era comum que dinastias fossem chamadas pela casa ou nome do seu fundador. Expressões como “Casa de Omri”, “Casa de Hazael” ou “Casa de Jeú” aparecem em registros arqueológicos e bíblicos, identificando não apenas o governante, mas toda sua linhagem e domínio político. A menção a “Casa de Davi”, portanto, implica não apenas a existência de Davi, mas a continuidade de seu reinado através de sucessores legitimados.
Esse tipo de referência não é casual. Um rei inimigo — como o que escreveu a estela — jamais reconheceria um nome fictício ou mitológico. O uso da fórmula “Casa de…” é próprio da linguagem política e diplomática da época.
3.2. A estrutura do termo em aramaico
O texto da inscrição utiliza a forma “ביתדוד” (byt dwd). Arqueólogos e linguistas observam que a ausência de artigo definido e a junção direta entre os dois termos seguem a fórmula comum nas inscrições semíticas para denotar casas reais, linhagens ou clãs. A construção se alinha com outras fórmulas similares, como “Casa de Omri” (byt ʿmr), registrada na Estela de Mesa e em textos assírios.
Essa consistência linguística reforça a autenticidade da referência — não se trata de uma expressão ambígua ou fora do padrão, mas de um uso técnico, inserido em um contexto específico de conflito e vitória.
3.3. A “Casa de Davi” na Bíblia
Na Bíblia, a expressão “Casa de Davi” aparece em vários contextos:
- Como símbolo da aliança divina:
“Fiz aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi: estabelecerei a tua descendência para sempre, e firmarei o teu trono de geração em geração.” (Salmos 89 versos 3 e 4) - Como referência política concreta:
“Toda a casa de Davi soube que o rei era Saul, mas a casa de Judá seguia a Davi.” (segunda Samuel 3 verso 1) - Como esperança messiânica:
“Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi…” (Amós 9 verso 11)
Ou seja, o termo atravessa a Bíblia com múltiplos significados — histórico, político e escatológico. Ver esse mesmo termo emergindo de um artefato do século IX a.C. é algo extraordinário. Ele conecta o texto bíblico ao vocabulário político real da época.
3.4. Uma dinastia desafiada, mas não apagada
É curioso notar que a inscrição de Tel Dã celebra a suposta vitória de Aram sobre a “Casa de Davi”. No entanto, mesmo ao registrar a derrota dos reis israelitas e de Judá, o autor reconhece que havia uma dinastia com esse nome. Isso mostra que a Casa de Davi era, àquela altura, uma entidade forte o bastante para ser alvo e troféu político.
Na arqueologia, o reconhecimento do inimigo é uma das formas mais poderosas de validação histórica. Afinal, nenhum rei celebraria a queda de uma dinastia que nunca existiu.
4 – A Validação Histórica e os Desafios Céticos
Quem foi Hazael de Damasco e o que ele diz na inscrição
A estela de Tel Dã, datada do século IX a.C., é atribuída por muitos estudiosos ao rei Hazael de Damasco, figura amplamente mencionada na Bíblia. Hazael não era apenas um nome aramaico entre tantos; ele foi um personagem central no conflito geopolítico que envolveu Israel e Judá. Segundo o livro de segunda Reis 8 verso 7 a 15, o profeta Eliseu foi ao encontro de Hazael, ainda servo do rei Ben-Hadade, e profetizou que ele se tornaria rei da Síria. Pouco tempo depois, Hazael assassinaria seu rei e tomaria o trono.
Sob seu reinado, Hazael conduziu uma política agressiva contra o reino do Norte (Israel) e contra Judá. Em segunda Reis 10 verso 32, lemos que “naqueles dias, começou o Senhor a diminuir os limites de Israel; Hazael os feriu por todas as fronteiras”. Essa expansão militar, segundo o texto bíblico, resultou em severas derrotas para Israel e Judá.
A inscrição da estela corrobora esse cenário. Embora fragmentada, a tradução amplamente aceita do texto aramaico traz trechos como:
“… matei Jeorão, filho de Acabe, rei de Israel, e matei Acazias, filho de Jeorão, rei da Casa de Davi…”
Aqui, o autor da estela (muito provavelmente o próprio Hazael ou alguém de sua corte) reivindica para si a autoria das vitórias militares mencionadas. Ele se gaba de ter derrotado dois reis ao mesmo tempo — um de Israel e outro de Judá —, o que seria um feito notável e digno de registro memorial. A Bíblia também relata a morte desses dois reis quase simultaneamente, embora atribua os fatos à conspiração de Jeú (segunda Reis 9 versos 14 a 29). Assim, temos dois relatos diferentes — um bíblico e outro aramaico — que descrevem o mesmo evento com perspectivas distintas. Isso, longe de contradizer a Escritura, reforça a veracidade do fato histórico, visto que diferentes fontes, com diferentes interesses, relatam os mesmos personagens e contextos.
As teorias contrárias: “pode ser outro Davi?”
Desde sua publicação, a estela de Tel Dã gerou entusiasmo — e também resistência. Alguns céticos buscaram reinterpretar a expressão “bytdwd” (ביתדוד), tradicionalmente entendida como “Casa de Davi”. As principais teorias alternativas alegam:
- Topônimo (nome de localidade): Sugerem que Dwd seria uma cidade ou região, e “Casa de Davi” significaria “Casa de Dwd”, não relacionada ao personagem bíblico.
- Nome comum ou título militar: A palavra Dwd, que significa “amado” em hebraico, poderia ser lida como um título honorífico genérico.
- Erro ou reconstrução forçada: Há quem alegue que a estela está muito danificada e que a leitura da inscrição pode ter sido moldada pela expectativa de se encontrar referências bíblicas.
No entanto, essas teorias esbarram em problemas sérios. Primeiro, não há registros arqueológicos ou epigráficos que confirmem a existência de uma cidade chamada Dwd no contexto aramaico ou israelita da época. Em segundo lugar, a construção “Casa de X” era amplamente utilizada para indicar dinastias (Casa de Omri, Casa de Jeú, etc.), o que torna natural o uso de “Casa de Davi”. E por fim, a paleografia da inscrição — seu estilo e ortografia — coincide com o século IX a.C., período em que a dinastia davídica estaria bem estabelecida em Judá.
O próprio arqueólogo William G. Dever, ao avaliar essas críticas, declarou:
“Não há base histórica ou linguística para negar que a inscrição se refira à dinastia davídica. Negá-lo é mais um exercício ideológico do que científico.”
Respostas da comunidade científica
A ampla maioria dos arqueólogos e epigrafistas especialistas reconhece a autenticidade da estela de Tel Dã como uma das provas arqueológicas mais sólidas da historicidade de Davi. Diversos pesquisadores renomados se posicionaram:
- Avraham Biran, o líder da escavação, publicou extensos relatórios validando a descoberta e defendendo a tradução como referência direta ao rei bíblico.
- André Lemaire, um dos maiores epigrafistas do mundo, considerou a leitura “Casa de Davi” inequívoca.
- Israel Finkelstein, ainda que cético quanto à grandiosidade do reino de Davi, reconheceu a importância da estela e não nega a existência histórica de Davi como chefe de uma linhagem tribal relevante.
- A Biblical Archaeology Society, em diversos artigos e estudos de campo, considera a inscrição como evidência material de um personagem bíblico — fato raro, já que nomes de reis hebreus anteriores ao exílio quase não aparecem fora da Bíblia.
A inscrição se soma a outras descobertas como o Selo de Ezequias, o Selo de Baruque, a Estela de Mesa (referência à Casa de Omri), e vários achados em Jerusalém (que veremos no próximo tópico), como peças que, juntas, constroem um cenário cada vez mais sólido da existência de um reino hebreu unificado e bem estruturado desde o século X a.C.
5. O Reino de Davi – De Personagem à Prova Histórica
A figura de Davi, o pastor que se tornou rei, tem sido durante séculos um dos pilares da narrativa bíblica. Contudo, o escopo do seu reinado foi longamente debatido: teria ele sido um chefe tribal com influência local restrita? Ou realmente governou um reino centralizado com Jerusalém como capital? O achado da inscrição de Tel Dã abriu as portas para essa investigação, mas ela não é a única peça no quebra-cabeça. Neste tópico, reunimos as evidências arqueológicas que ajudam a sustentar a existência de um reino real, ativo e estruturado no período atribuído a Davi — evidências que vêm principalmente de Jerusalém e seus arredores.
5.1 Outras evidências do reinado de Davi em escavações em Jerusalém
As escavações arqueológicas conduzidas em Jerusalém nas últimas décadas revelaram camadas do século X a.C. (período tradicionalmente atribuído ao reinado de Davi), contendo estruturas defensivas, muros, edifícios administrativos e reservatórios que indicam uma cidade em processo de centralização política e urbanização acelerada.
A arqueóloga Eilat Mazar, por exemplo, anunciou em 2005 a descoberta de uma estrutura massiva ao sul do Monte do Templo que ela identificou como o Palácio de Davi. Embora essa identificação seja contestada, o consenso é que a estrutura é monumental, datada do século X a.C. e que revela um tipo de construção pública associada à realeza. O local está próximo à chamada “Cidade de Davi”, o núcleo mais antigo da Jerusalém bíblica.
Além disso, descobertas como a estrutura escalonada de pedra e o chamado “Grande Projeto de Pedra” na mesma região foram interpretadas como parte de um complexo governamental ou fortificação associada ao período davídico ou salomônico.
5.2 Fragmentos arqueológicos que sustentam sua existência
Além das grandes estruturas, diversos artefatos menores ajudam a compor o retrato de um governo centralizado em Judá no tempo de Davi:
- Ostracas e inscrições em hebraico primitivo, encontradas em sítios como Khirbet Qeiyafa (datado do século X a.C.), indicam alfabetização e administração estatal.
- Selo real de Jehucal, um oficial citado em Jeremias, e o selo de Ezequias, mostram que o uso de selos reais já era prática comum na administração judaica, sendo possível que essa prática remonte aos tempos anteriores, como o de Davi.
- A descoberta de fortificações em cidades como Hazor, Megido e Gezer, com características arquitetônicas similares, reforça a ideia de um esforço unificado de construção — possivelmente iniciado por Salomão, mas baseado na fundação política de Davi.
Em conjunto, esses achados indicam que Jerusalém não era apenas uma aldeia rural ou um acampamento tribal no tempo de Davi, mas sim uma cidade ativa, que abrigava estruturas administrativas e militares.
5.3 O impacto da estela na história da monarquia israelita
Com a descoberta da Estela de Tel Dã, o debate sobre a existência de Davi deixou de ser uma questão de fé ou tradição apenas — tornou-se também uma questão arqueológica e historiográfica. Se antes os minimalistas (aqueles que minimizam a confiabilidade histórica da Bíblia) afirmavam que Davi seria uma figura mitológica inventada no período pós-exílico, agora eles precisam lidar com uma evidência material, datada de apenas 150 anos após o reinado de Davi, que o menciona como fundador de uma casa real reconhecida internacionalmente.
O impacto da estela vai além de Davi: ela solidifica a credibilidade dos livros históricos da Bíblia, mostrando que o texto bíblico preserva nomes, eventos e estruturas políticas reconhecíveis e verificáveis no registro arqueológico. Ela também contribui para fortalecer o entendimento de que o Reino Unido de Israel e Judá era uma entidade real, com instituições políticas e diplomáticas que interagiam com seus vizinhos.
Por fim, ela reforça a importância de Jerusalém como capital política desde os dias de Davi — algo que a Bíblia afirma repetidamente (segunda Samuel 5 versos 6 a 10), e que agora pode ser também defendido diante da academia secular com base empírica.
Se este conteúdo edificou sua fé ou despertou sua curiosidade, queremos te convidar a continuar nos acompanhando. Esta é apenas a primeira escavação desta série. Nas próximas publicações, vamos explorar outros achados impressionantes que conectam a arqueologia com a Bíblia viva — desde o tabernáculo em Siló até fragmentos que sugerem a glória do reinado de Salomão e mais.
💬 Tem um tema bíblico ou uma dúvida histórica que você gostaria de ver tratado aqui? Envie sua sugestão nos comentários ou pelo nosso formulário de contato. Seu interesse pode se tornar nosso próximo artigo!
Bibliografia
BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY. The Tel Dan Inscription: The First Historical Evidence of King David. Biblical Archaeology Society, 2023. Disponível em: https://www.biblicalarchaeology.org/daily/biblical-artifacts/the-tel-dan-inscription-the-first-historical-evidence-of-the-king-david-bible-story. Acesso em: 12 abr. 2025.
BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY. David Found at Dan. Library of Biblical Archaeology, 2022. Disponível em: https://library.biblicalarchaeology.org/article/david-found-at-dan. Acesso em: 12 abr. 2025.
BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY. Happy Accident: David Inscription. Library of Biblical Archaeology, 2021. Disponível em: https://library.biblicalarchaeology.org/sidebar/happy-accident-david-inscription. Acesso em: 12 abr. 2025.
BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY. House of David Restored in Moabite Inscription. Library of Biblical Archaeology, 2020. Disponível em: https://library.biblicalarchaeology.org/article/house-of-david-restored-in-moabite-inscription. Acesso em: 12 abr. 2025.
DEVER, William G. Has Archaeology Buried the Bible? Wm. B. Eerdmans Publishing, 2020.
Termo de Permissão para Uso de Conteúdo
Este artigo é propriedade intelectual do site Viver é Cristo ( viverecristo.com.br). É concedida a permissão para compartilhar, reproduzir ou distribuir este conteúdo em outras plataformas ou formatos, sob as seguintes condições:
1. Crédito ao Autor e ao Site: Toda utilização do conteúdo deve incluir um reconhecimento explícito ao autor original e um link claro e visível para o site “Viver é Cristo” (viverecristo.com.br).
2. Uso Não-Comercial: O conteúdo pode ser utilizado para fins não comerciais apenas, salvo autorização específica e por escrito por parte dos editores do site “Viver é Cristo”.
3. Sem Modificações: O conteúdo deve ser mantido em sua forma original, sem alterações, edições ou adaptações significativas.
Este termo de permissão tem como objetivo promover a difusão de informações e conhecimentos relacionados à fé e espiritualidade, respeitando os direitos autorais e a integridade do conteúdo original.
Para solicitações de uso comercial, alterações no conteúdo, ou qualquer outro uso não coberto por este termo, por favor, entre em contato conosco através do nosso site ou pelo endereço eletrônico contato.viverecristo@gmail.com.
Atenciosamente, Márcio M Santos
Redator
Viver é Cristo – viverecristo.com.br