O Mistério da Cruz que Redime

A história que nos contaram…

Vamos ler o texto base para esta mensagem, que nos confronta à quase 3.000 anos.

“Quem creu em nossa pregação?  E a quem foi revelado o braço do SENHOR?

Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse.

Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens;  homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso.

Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores  levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido.

Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas;  cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos.

Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro;  e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca.”

Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada (SBB, 1999), Isaías 53 versos 1 a 7

É impossível passar pela Semana da Páscoa sem sentir o peso de uma história que moldou a fé de milhões de pessoas ao longo dos séculos, e na Sexta-feira da Paixão, esse peso se torna ainda mais intenso, mais denso. A cruz de Cristo se ergue como o maior escândalo da justiça humana… e a maior expressão do amor divino. A gente ouve falar disso desde pequeno: “Jesus morreu por nossos pecados.” Mas será que a gente realmente entende o que isso significa?

Por que a morte de um homem, há dois mil anos, teria algum valor pra mim, hoje? O que há de tão profundo naquela sexta-feira que justifique chamá-la de “santa”, se nela se registrou um dos atos mais violentos e injustos da história?

O profeta Isaías, cerca de setecentos anos antes da cruz, já havia sido inspirado a enxergar esse mistério, ele viu o que muitos ainda não conseguem ver: o sofrimento de um homem que carregava algo que não era seu, e não só isso, ele viu que todo esse sofrimento era parte de um plano, um propósito. Não foi acidente. Não foi falha. Foi entrega. Foi substituição.

Isaías 53 não é um poema triste, é uma janela para o coração do Evangelho, um dos textos mais belos e mais doloridos das Escrituras. Um capítulo que retrata o amor de Deus com tintas de sangue, de silêncio e de rejeição, e quando a gente lê esse capítulo, com os olhos voltados pra João 19, percebe que o que Isaías profetizou se cumpre, ponto por ponto, na paixão de Cristo. Jesus é o Servo Sofredor, Ele é aquele de quem os homens esconderam o rosto, mas que se apresentou voluntariamente pra sofrer a condenação que era nossa.

Nesta mensagem, vamos caminhar com Isaías e com João, o discípulo amado de Jesus. Vamos seguir os passos daquele que foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades. E vamos entender por que a cruz não é só um símbolo de fé, mas o maior divisor de águas da história da humanidade, e da minha vida e da sua.

O nosso objetivo aqui não é só mais conhecimento. É ser confrontado. É sentir o peso daquela cruz… e o alívio que ela trouxe, porque só entende a glória do Domingo de Páscoa quem primeiro desce com Jesus ao vale escuro da Sexta-feira da Paixão.

Isaías começa seu cântico com uma pergunta que atravessa séculos de incredulidade: “Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (Isaías 53 verso 1). Essa introdução já aponta pra um mistério: a mensagem da salvação viria de uma forma inesperada, e por isso muitos não creriam. O braço do Senhor, símbolo da força e da ação de Deus, seria revelado não em glória visível, mas no sofrimento de um homem comum.

Isaías prossegue dizendo: “Ele cresceu diante dele como um renovo tenro, como raiz saída de uma terra seca. Não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada em sua aparência para que o desejássemos” (Isaías 53 verso 2). O Servo do Senhor, que sabemos ser Jesus, não viria com pompa, viria como alguém sem valor aos olhos humanos, é exatamente isso que vemos em João 19, quando Jesus é apresentado ao povo por Pilatos, coroado com espinhos, vestido com um manto escarnecedor, e declarado: “Eis o homem!” (João 19 verso 5). Ou seja: “Olhem pra esse aí… é disso que vocês têm medo?

Mas a rejeição não parou aí. Isaías declara: “Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores e experimentado no sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima” (Isaías 53 verso 3). Na cruz, Jesus foi abandonado por quase todos. Os discípulos se dispersaram, o povo que o ovacionava em Jerusalém agora gritava “Crucifica-o!” (João 19 verso 6). Ele foi deixado nu, pendurado entre dois criminosos, como escória da sociedade.

Esse quadro expõe o coração da nossa rebeldia, rejeitamos o único que poderia nos salvar, porque ele não veio do nosso jeito. Queríamos um rei com espada, mas recebemos um Cordeiro calado, e mesmo assim, ali estava o plano de Deus se cumprindo.

Somos chamados a encarar uma verdade dura: Jesus não foi ignorado por engano. Foi rejeitado conscientemente, e nós, como humanidade, participamos dessa rejeição todas as vezes que desprezamos sua Palavra, sua Cruz e sua Graça.

Isaías não deixa espaço pra dúvidas: “Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores; contudo, nós o consideramos castigado por Deus, por ele atingido e afligido” (Isaías 53 verso 4). Essa frase por si só já é capaz de fazer o coração tremer, porque ela revela o grande engano da humanidade: achamos que Jesus foi punido por algo que ele fez, mas a verdade é que ele carregava o que era nosso.

Enquanto ele caminhava em direção ao Gólgota, com o madeiro pesando nas costas, o que estava sobre seus ombros era mais do que madeira, era a culpa da humanidade. Cada pecado, cada injustiça, cada impureza, cada rebeldia… era isso que pesava, e ele não resistiu. Não recuou. Ele foi. Por mim e por você.

E o versículo seguinte aprofunda ainda mais: “Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados” (Isaías 53 verso 5).

O sangue que escorria não era sinal de fraqueza, era o preço da nossa cura, a coroa de espinhos não era só zombaria dos soldados, era a humilhação do Rei que se fez servo, para que escravos pudessem ser feitos filhos. Quando olhamos pra cruz à luz dessa verdade, não conseguimos mais permanecer indiferentes, não dá pra achar que foi só um acontecimento religioso ou um símbolo de fé. A CRUZ é o lugar onde a justiça de Deus e o seu amor infinito se encontraram. O CASTIGO que era nosso CAIU SOBRE ELE, e a paz que não podíamos alcançar nos foi entregue pelo sangue do Salvador.

No relato de João, vemos Jesus sendo espancado, cuspido, escarnecido, e por fim cravado na cruz com cravos nas mãos e nos pés. Ele não grita, não se defende, não reage, Ele apenas cumpre o que Isaías já havia visto séculos antes. A mensagem de João 19 não é só histórica, ela é viva, é um convite pra cada um de nós olharmos pra cruz e entendermos: AQUILO ERA PRA MIM. Aquela dor, aquele castigo, aquela vergonha… tudo era MEU E SEU.

MAS ELE LEVOU…

E é por isso que essa não é só uma mensagem pregada, ela é pra ser sentida, recebida com lágrimas nos olhos e gratidão no peito, porque nãoamor maior do que esse.

Há algo nesse trecho de Isaías que sempre me deixa inquieto, é quando ele diz: “Ele foi oprimido e afligido, e contudo não abriu a boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como uma ovelha que diante dos seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a boca” (Isaías 53 verso 7).

Essa é uma das imagens mais impactantes da cruz, porque não estamos falando de fraqueza, estamos falando de obediência. Jesus tinha poder para parar tudo, e ele mesmo disse: “Você não sabe que eu poderia rogar ao Pai, e ele colocaria à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” Mas ele não rogou, Ele permaneceu, Ele escolheu sofrer, Ele se calou.

No capítulo 19 do Evangelho de João, quando Pilatos interroga Jesus, há um momento em que ele, já flagelado e ensanguentado, permanece em silêncio. E Pilatos diz: “Você não me responde? Não sabe que eu tenho autoridade para libertá-lo ou crucificá-lo?” (João 19 verso 10). Mas Jesus, com a calma de quem conhece o propósito eterno, responde: “Você não teria nenhuma autoridade sobre mim, se de cima não lhe fosse dada” (João 19 verso 11).

O silêncio de Jesus não é vazio, é carregado de intenção. Ele está ali porque decidiu estar. Ele está entregando sua vida. A cruz não foi um acidente, foi uma missão. Isaías ainda diz: “Foi levado com julgamento opressor, e quem pode falar dos seus descendentes? Pois ele foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado” (Isaías 53 verso 8).

A injustiça foi real, o julgamento foi uma farsa, mas havia algo acontecendo nos bastidores espirituais. Enquanto os homens julgavam Jesus por motivos políticos e religiosos, o céu estava usando aquele momento para julgar o pecado do mundo, e foi por nossa causa. Pela transgressão do povo, ele foi golpeado.

Você já parou pra pensar o que significava aquele silêncio? Era o Cordeiro de Deus dizendo: “Eu aceito.” Era ele se colocando no nosso lugar sem murmurar, sem fugir, sem barganhar. Isso é amor em sua forma mais pura.

Numa cultura que valoriza tanto o grito, o protesto, a defesa pessoal, a cruz nos ensina que às vezes o maior poder está no silêncio, na oração. No silêncio de quem confia plenamente no Pai. No silêncio de quem sabe que a dor vai gerar vida. No silêncio de quem ama.

Diante de tudo o que vimos até aqui, não tem como sair da presença da cruz do mesmo jeito que entramos. Porque essa cruz expõe a verdade sobre Jesus… mas também revela a verdade sobre nós.

Tem uma parte dessa mensagem em Isaías que nos desarma por completo. É quando o profeta diz: “Todavia, foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer, e embora o Senhor tenha feito da vida dele uma oferta pela culpa, ele verá a sua descendência e prolongará seus dias; e a vontade do Senhor prosperará em sua mão” (Isaías 53 verso 10).

Como assim foi da vontade do Senhor? Como pode o próprio Deus desejar que o seu Servo sofresse?

É aqui que o amor atinge seu ponto mais profundo, porque a cruz não foi só consequência da maldade humana, ela foi o meio pelo qual Deus decidiu nos salvar. Era o único caminho, e Jesus aceitou esse caminho com plena consciência. Em João 10, ele mesmo declara: “Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha própria vontade” (João 10 verso 18).

A CRUZ não foi o fim. Ela era o meio. O versículo diz que ele verá a sua descendência e prolongará os seus dias, ou seja, mesmo sendo esmagado, ele não foi vencido. A morte que o levou, não o reteve, o túmulo que o recebeu, não o segurou, a vontade do Senhor iria prosperar, e prosperou.

E aí vem a promessa: “Depois do sofrimento de sua alma, ele verá a luz e ficará satisfeito; pelo seu conhecimento, o meu Servo justo justificará a muitos, e levará a iniquidade deles” (Isaías 53 verso 11).

Jesus não terminou na cruz, a sua alma veria a luz, e o fruto do seu sacrifício seria uma multidão de justificados, de pecadores redimidos, de filhos reconciliados com o Pai. Isso inclui VOCÊ, isso inclui a mim, a cruz foi o preço, mas a salvação foi o resultado.

João 19 fecha esse capítulo com Jesus morto, seu corpo sendo descido da cruz, envolvido em linho e levado ao sepulcro de José de Arimatéia. Aos olhos humanos, era o fim, mas Isaías já tinha nos avisado: não era fim coisa nenhuma, era só o início de uma nova história.

A cruz é o ponto de virada, é onde o céu tocou a terra, onde o justo morreu pelos injustos, onde o amor venceu o pecado. Mas ela também é a porta, porque depois dela, vem o túmulo vazio, vem o “Ele não está aqui”, vem a glória da ressurreição.

E é pra lá que estamos indo, mas só chega ao domingo quem passa pela sexta-feira, só celebra a vida quem reconhece o preço da cruz. E hoje, o Espírito Santo nos chama a olhar pra esse Jesus crucificado, e reconhecer que foi por nós, que ali a dor não foi em vão. Foi redentora.

É fácil olhar para o sofrimento do Servo e sentir compaixão, mas o Espírito Santo hoje quer nos levar além disso. Ele quer que a gente olhe pra cruz e diga: “Era eu quem deveria estar ali.” A verdade é que sem essa cruz, nós estávamos perdidos, a Palavra nos lembra: “O salário do pecado é a morte” (Romanos 6 verso 23 parte a). Essa era a nossa sentença, e não havia recurso, não havia fuga, não havia remédio humano capaz de curar nossa alma do veneno do pecado, estávamos condenados, e com razão.

Mas eis o que Isaías diz: “Ele levou sobre si o pecado de muitos e intercedeu pelos transgressores” (Isaías 53 verso 12 parte b). Ele tomou o nosso lugar, recebeu sobre si a justiça que era contra nós, pra que agora a gente pudesse receber, pela fé, a graça que nos transforma.

A cruz não é um símbolo bonito, ela é o altar do sacrifício, é o lugar onde a culpa foi paga, onde o sangue inocente foi derramado para lavar a culpa dos culpados. E hoje, graças a essa cruz, nós temos uma nova expectativa com Deus. Nós que estávamos mortos, fomos chamados à vida. Nós que éramos inimigos, fomos feitos filhos. Nós que caminhávamos para a morte eterna, agora temos a esperança da vida eterna. Tudo por causa da cruz.

Mas é preciso responder a essa verdade. A cruz está diante de você agora. Você pode ignorá-la como muitos fizeram… ou vai se render como aquele centurião que, ao ver Jesus entregar seu espírito, declarou: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus” (Mateus 27 verso 54)?

Hoje, é dia de parar, de se colocar aos pés do Senhor e deixar que Seu Espírito Santo te transforme, lembrar do preço, e responder com entrega.

E que ao fim dessa caminhada, o nosso coração já esteja ardendo pela manhã do terceiro dia. Porque aquele que morreu… ressuscitou… E há uma promessa que também ressuscitaremos com Ele.

“Assim, pois, como diz o Espírito Santo:  Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração…”  (Hebreus 3 versos 7 e 8 parte a)

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